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Sobre vida e tempo

O Tempo é um dos temas que mais me fascina! Então, me pego lendo e relendo esse trecho da filósofa e escritora Simone de Beauvoir:

"O tempo é irrealizável. Provisoriamente, o tempo parou pra mim. Provisoriamente. Mas eu não ignoro as ameaças que o futuro encerra, como também não ignoro que é o meu passado que define a minha abertura para o futuro. O meu passado é a referência que me projeta e que eu devo ultrapassar. Portanto, ao meu passado eu devo o meu saber e a minha ignorância, as minhas necessidades, as minhas relações, a minha cultura e o meu corpo. Que espaço o meu passado deixa pra minha liberdade hoje? Não sou escrava dele. O que eu sempre quis foi comunicar da maneira mais direta o sabor da minha vida, unicamente o sabor da minha vida. Acho que eu consegui fazê-lo; (...) Não desejei nem desejo nada mais do que viver sem tempos mortos."

Sobre Sociabilidades & Amizades

“– Você deve pensar que gosto muito de vida social, mas não é inteiramente verdade. Eu só não consigo ficar sozinho. Não tenho o menor interesse pelo que as pessoas têm a dizer, mas não prescindo de companhia, a mais tola, a mais supérflua. Eu preciso de gente, preciso falar, falar e falo inconsistências, nada de real, sincero, falo sem parar, cortinas de palavras vãs, e o que sobra de tudo isso é apenas um vago sentimento de não estar só.
– (...)
– Sinto saudade do tempo em que a gente era amigo.
– Eu também. Tenho saudade das piadas idiotas, da vida de todos passada a limpo, daquela espécie de adolescência revivida do afeto que nos unia, da família que éramos. Quando nos separamos, eu perdi a família.
– Nós temos de ficar juntos. Nós, que apesar de todas as diferenças nos queremos tanto, por tudo o que vivemos, pela cumplicidade que muitas vezes não é verbal, mas que se expressa na nossa afetividade, na agressão, no carinho pela nossa juventude, nós não podemos romper, nos afastar.”


Maria Adelaide Amaral. Aos Meus Amigos. SP: Globo, 2008, pp. 318-319.

Luto & Melancolia - Carta não datada

Vida,
Disseram-me que a dor passaria, mas ainda não passou. Enquanto isso tenho estado seco, seco de amor - o mesmo que me fora roubado mediante a extrema felicidade. Sem ele, nada consigo dizer-lhe. De tudo o que eu deveria, ou poderia. Dizer-lhe do calor que tem feito, das chuvas de verão ao entardecer, das descobertas e reconfirmações dos ganhos...
Nada me veste ou transborda. Tudo em mim é desencontro e despedida, abismo e queda, imersão. Tenho tentado reaprender ou mesmo aprender a seguir novos e velhos caminhos tendo agora, em minha bagagem, como companheira, a leva de "apesar de's" do qual tanto ouvira falar sem conseguir dimensionar sua força.
Lamento imensamente que esta carta tenha tamanha carga, que seja uma carta recoberta de luto e melancolia, mas meu corpo denso me governa e minhas mãos só me permitem a transmissão desse pesar a espera do tempo, a espera do fim.
Com afeto,
Eu.

Carta para você

"Tenho pensado em você quando tudo se silencia, quando tudo deixa de exigir urgência, a pulsão diminui, e não sinto mais a dor, não como antes. Tenho amado você aos poucos, sem pressa, sem alarde, sem explosões, e isso tem me modificado de algum modo.

Meu amor, confesso, tem tempo certo, segue gestando-se pouco a pouco nesse coração sôfrego de lutas cotidianas. Meu amar necessita de elaboração para se construir certeza, requer estruturas sólidas, portos largos fixados em águas profundas, bases que me permitam fincar morada.
Eu te amo em mim e meu amor é delicado, por isso não o ofereço a ti. Sou egoísta, admito, quero me permitir amar sem interrupções, sem possíveis negações; quero a magia da alegria crescendo a cada instante dentro desse corpo num acontecer inexplicável.
Meu corpo te cabe por inteiro, meu corpo são poros abertos, sedentos, em busca de um complemento que só você é capaz de oferecer."

de 1950

“Se você encostar em mim, sinto que não irei agüentar. Não irei suportar sentir seu toque fugaz e... Preciso dessa mínima distância para poder respirar meu próprio ar, alimentar-me de luz nascida do meu mais íntimo. Meu vício de você não fora algo que eu previra; quando percebi, já estava dada essa entrega sem amarras nem placas ou sinalização. As ruas túneis difusos, vielas bifurcadas de fluxos e confluxos de vocabulários próprios e distanciados do todo. Eu tenho bocas, mas não tenho a posse do eu, nem mesmo a voz da negação. Tenho veias, frutas secas e tinteiros, tenho vãos despertencidos borrões de loucuras sólidas razões imaculadas e putas. Colho os sonhos que você me deu. Os corpos, os corvos.”

Saber sofrer (?)

Em carta, você me perguntou pela felicidade, mas preciso, em resposta, escrever sobre o sofrimento. Talvez eu os veja como interdependentes, como componentes simbióticos de um sonho coletivo. Isso que convencionamos chamar de realidade. Uma ilusão. Uma desilusão.

O que mais poderia nos livrar do sofrimento se não a percepção do mesmo como parte integrante de um círculo natural ao ser humano? Sofremos por estamos vivos. Nossa outra opção seria não sofrer, ou seja, não mais viver – a vida em sua plena intensidade de jogo de forças que se sobrepõem, a todo instante, a nós.
Portanto, cabe-nos constantemente reinventarmos o sentido da vida, já que o mesmo não se encontra dado, descobrirmos valores que justifiquem o sofrimento, o entendimento deste como um momento não definitivo, mas fundamental para o crescimento, para uma completa expansão no mundo.

Resquícios confessionais

Abortei o amor na clandestinidade dos excluídos, dos subversivos, dos exilados frente à própria felicidade. Não tinha direito a tanto, a tudo; o direito de governar-me nunca me fora entregue bem como as chaves do deserto de peles com que me cubro, e não me cabem. Abortei as faltas que, talvez, não me caibam como quem reduz ao pó a própria inexistência do grito a procura de alento. Os excessos presos a garganta um nó de palavras símbolos e signos, corroboradas em cartas extraviadas na imensidão do afeto sepultado. Ao morto, duas moedas de prata sobre os olhos, o devido.

As formas de loucura sem sentido

Às vezes tenho vontade de fazer as malas e partir, mas só ás vezes é que tenho essa vontade de ser eu mesmo; em geral fico quieto e obstinado, obedecendo ao jogo flutuante aceito veladamente no exato momento do embarque. Houve a partida sem despedida e a percebi no momento em que olhei para trás e o passado já não estava mais no lugar que eu acreditei que devesse estar.

Tudo é muito confuso para ser descrito, ainda mais em cartas fantasmas, sem destinatários ou datas. Enviarei a você, que sou eu na medida em que lê o que escrevo, na medida em que me lê, os trechos que ainda me constituem forma e força, as pistas deixadas ao acaso, para o caso de alguém decidir procurar por mim, e você, por aí.

Perambulando

Andando pelas areias da praia, tinha a esperança de que o gesto me fosse devolvido, de que os passos ainda produzissem pegadas. Mas a areia haviam coberto tudo o que um dia havíamos sido. Nós dois soterrados em palavras cotidianas, de vida e de morte.
Lembrei-me da exata medida em que nos encontrávamos ao perceber a perda de direção mediante o abismo de incertezas e negrumes grãos de areias – restos de tempo perdido em ampulheta naufragadas –: a cada instante mais vivos, a cada instante mais próximos da morte.
O que dói não é a verdade, mas o nenhum preparo para perceber o que se dava sem a mínima percepção do possível e fatídico fim. O não despertar para o momento anterior ao momento presente, antes do acordar pra essa ausência que me cobre a pele e me despe os sentidos.

...Mas você não estava lá;

E era tudo o que eu sabia: que você não estava. Se ao menos eu possuísse a certeza de que um dia havia estado, talvez pudesse repousar entre os abraços não recebidos. Mas já não estava lá; o laço desfeito, a dúvida perdida. Apenas esses fragmentos, caídos ao chão, os velhos retratos de momentos passados, e as letras de vivências destroçadas por sobre as paredes brancas. As chuvas de outono. As mágoas.

Devaneio

É um espaço vazio. O que fazer quando o espaço vazio reside dentro de nós, sendo impossível apagá-lo, transferi-lo ou ignorá-lo? Dar voltas ao redor de si mesmo para constatar o peso da leveza. O vazio pesa, de tão leve que. É. E não é cheia, é falta o que preenche o vazio. Cheia, talvez, de inúmeras outras coisas. Mas tanto também falta, tanto também cabe – ou será que não?

Clément Rosset diz que o homem tem uma enorme capacidade de sentir, mas uma mínima capacidade de suportar o que sente. Quem sabe seja isso, quem sabe a falta se chame felicidade. O que pode ser a felicidade que não espaços absolutos em meio à infinidade de constâncias cotidianamente inexpressivas? Espaços absolutos de alegria, de bons encontros, diria Spinoza, de pura revelação, insight, epifania.

Mas o que sei eu sobre tudo isso, sobre felicidade, encontros, Spinoza ou Clément Rosset? Eu que sou apenas mais um tentando sobreviver, ou melhor, tentando desvendar a capacidade humana de ir além da sobrevivência e viver. O que sei? a não ser que tudo isso custa caro, custa muito cara a guerra contra o (des)conhecido inominável?

cartas aos náufragos

Estou fracassando. Fracassando e sem ter como evitar.
As imagens me acompanham; meu espaço à deriva.
Li um livro recentemente que me deixou muito triste, e feliz.
Depois posso até reflexões que expliquem
porque o sofrimento, na arte, permite o prazer.

Nietzsche, quem sabe também Schiller...
Schiller não caberia aqui, no momento
eu é que deveria caber. No entanto não consigo transparecer.
Camadas e mais camadas...
Cal onde nem chuvas de janeiro nem desembocamento
de rios em mares conseguiram desmanchar.

Fiz pesquisa e descobri muito do desconhecido.
Óxido de cálcio: substâncias das mais importantes
para a indústria, utilizado na construção civil para preparação
de argamassas que erguam paredes e muros

da minha vida. possuo os muros e as entranhas, firmes.
Essas resistências que por tantas vezes me sufocam
e não sei como evitar. Fiz pesquisa para saber, para que saiba.
Que talvez eu não seja tão ingênuo, não;
Que talvez o amor não me queira. na palma de suas mãos
Se conto, é para que saiba:

Já não escondo tanto mais a minha dor. Se eu estiver sangrando.

carta naufragada: bilhete redescoberto*


Parte II, Indagações:

quem cuidará das minhas dores inomeáveis
e me estenderá as mãos quando nada mais fizer sentido?
me reensinará o caminho rumo ao futuro incerto
onde tudo se fará como da primeira vez
nunca ocorrida...

(* entre as caixas de Pillar, bilhete datado de 1920)

Carta a quem sou quando não palavra

o céu bonito e claro. escorre. aos poucos. os olhos.
da janela se vê. o interno-outro: nebulosidade e mistério.
desconhecidos. rios a se formar por sobre o chão.

onde não piso.
é maio e não tenho medo. do futuro.
uma paz desconhecida a irromper da carne.
pega minhas mãos e acalma. sua angustia
como se um corpo a dividir. sem pressa,
nossa canção eclode das águas e flui – em meu avesso.

por entre pedras e lama. a confirmação de nossos dias
entrega. porque você nunca me economiza. exiges,
inclusive, as entranhas do sentimento ainda não acontecido.

n
ascendo de dentro de mim sem explicação. há todo um
gesto e jeito próprio de ser.

e não sei se transbordo ou seco. ser líquido ou represa
não sei se líquido ou represa. meu lugar nesse estancar
entre moradas e esquecimentos. me diz (?) porque
eu simplesmente me entrego.

(imagem da série 'Aqueous', do fotógrafo britânico Mark Mawson)

Carta feito tatuagem

Eu não tenho o menor senso prático, e por isso confesso
essa facilidade p'ra viver
_____________________a vida sem sequer pensá-la
ponho pelo avesso antes de ousar decidir trajeto,
sair de casa e deixar as coisas acontecerem. Ou não.
A ordem prática em relação às coisas é algo que me falta.
Tenho uma estranha disposição para a complicação.

O fazer de algo simples se torna subjetivo:
preciso de bulas detalhadas que me expliquem
possibilidades; de como posicionar pontos finais ou agir
mediante a desvios, vírgulas de percurso e sensações
em forma de sentidos. Sonetos que traduzam. minha obsessão
por letras, signos, tinta e grafia. Sua caligrafia fica. desenhada
por sobre o corpo, tatuagem a me redirecionar a você. em mim.