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Entre o jogo intenso dos corpos que se buscam
Sempre de forma distinta
E a palavra que eternamente se repete,
É preciso sempre de novo
A vida.
Essa descomunal intensidade
Que se chama vida


Viviane Mosé. Pensamento Chão. RJ: Record, 2007, p. 56.

O silêncio como linguagem

"Há momentos e situações em que o olhar comunica mais que as palavras, isso também é intimidade. Creio que sou capaz de dizer muitas cosas sem falar, é o outro que também tem de compreender e de saber interpretar. Quando se estabelece essa relação de intimidade e de amizade, não é necessário falar. (...) Frequentemente é melhor não o fazer porque as palavras estão muito gastas."


António Lobo Antunes

A transgressão do pensar

"(...) Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto. (...) Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar. (...) Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança. Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade. Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for. E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.”

Lya Luft. Pensar é Transgredir. In: Pensar é Transgredir. RJ: Record, 2004

Fragmentos de aprendizagens

“— E então você não quis mais nada disso. E parou com a possibilidade de dor, o que nunca se faz impunemente. Apenas parou e nada encontrou além disso. Eu não digo que eu tenha muito, mas tenho ainda a procura intensa e uma esperança violenta. Não esta sua voz baixa e doce. E eu não choro, se for preciso um dia eu grito, Lóri. Estou em plena luta e muito mais perto do que se chama de pobre vitória humana do que você, mas é vitória. (...) Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira. Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.”
Clarice Lispector. Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres. RJ: Rocco, s/d:

Sobre Sociabilidades & Amizades

“– Você deve pensar que gosto muito de vida social, mas não é inteiramente verdade. Eu só não consigo ficar sozinho. Não tenho o menor interesse pelo que as pessoas têm a dizer, mas não prescindo de companhia, a mais tola, a mais supérflua. Eu preciso de gente, preciso falar, falar e falo inconsistências, nada de real, sincero, falo sem parar, cortinas de palavras vãs, e o que sobra de tudo isso é apenas um vago sentimento de não estar só.
– (...)
– Sinto saudade do tempo em que a gente era amigo.
– Eu também. Tenho saudade das piadas idiotas, da vida de todos passada a limpo, daquela espécie de adolescência revivida do afeto que nos unia, da família que éramos. Quando nos separamos, eu perdi a família.
– Nós temos de ficar juntos. Nós, que apesar de todas as diferenças nos queremos tanto, por tudo o que vivemos, pela cumplicidade que muitas vezes não é verbal, mas que se expressa na nossa afetividade, na agressão, no carinho pela nossa juventude, nós não podemos romper, nos afastar.”


Maria Adelaide Amaral. Aos Meus Amigos. SP: Globo, 2008, pp. 318-319.

Carta a quem sou quando não palavra

o céu bonito e claro. escorre. aos poucos. os olhos.
da janela se vê. o interno-outro: nebulosidade e mistério.
desconhecidos. rios a se formar por sobre o chão.

onde não piso.
é maio e não tenho medo. do futuro.
uma paz desconhecida a irromper da carne.
pega minhas mãos e acalma. sua angustia
como se um corpo a dividir. sem pressa,
nossa canção eclode das águas e flui – em meu avesso.

por entre pedras e lama. a confirmação de nossos dias
entrega. porque você nunca me economiza. exiges,
inclusive, as entranhas do sentimento ainda não acontecido.

n
ascendo de dentro de mim sem explicação. há todo um
gesto e jeito próprio de ser.

e não sei se transbordo ou seco. ser líquido ou represa
não sei se líquido ou represa. meu lugar nesse estancar
entre moradas e esquecimentos. me diz (?) porque
eu simplesmente me entrego.

(imagem da série 'Aqueous', do fotógrafo britânico Mark Mawson)

Na rua em que perdemos os nomes,

os passos são lentos. Parecem retornar em minha direção. Não sei se, de fato, desistira. Não pedi para que ficasse. Despedi-me por acreditar definitivo. Ao dizer adeus, algo me devolveu a despedida. Não um eco; algo único. Fixei meus olhos em sua boca na esperança de que você... Se ao menos naquele instante tivesse-me dito as palavras que nos reuniria novamente... No entanto, ficou o silêncio, diante de mim, o vazio; E os lábios selados, os mesmos lábios que tanto declararam, secos. Confrontou-me como se eu fosse um inimigo. Lembrei-me do riso solto e da bagunça dos lençóis. Tudo mudara tão de repente que nem ao menos sabia se um mero abraço ou aperto de mão, simplesmente. Éramos, agora, dois quase desconhecidos numa mesma rua. Só. A pergunta em forma de pensamento. Quando será que nos perdemos de nós?

*Para Heitor,

a situação é mesmo essa ao acordar e ver como o mundo se apresenta. Aí se arrasta até a rua, porque a sobrevida segue consigo, e dá de cara com alguém feliz! Vê uma pessoa feliz e pede desculpa, desculpa por também não estar sorrindo – mesmo que, a seu ver, não haja motivos; mesmo que não saiba as causas do largo afrouxar de lábios do outro, com seus dentes brancos e alinhados, a língua louca pra doar um jorro... –, desculpa por não saber, por não fazer, por seus olhos enxergarem além de si mesmo, por enxergar o que os outros não... E vai batendo uma angústia, de repente, uma dor no peito crescendo em direção ao céu cinzento e turvo podendo, a qualquer momento, escapar pela boca... Sentindo-se mal por estancar o venoso da alma; amaldiçoado por todo colesterol ruim que irá consumir em salgados fritos e comidas enlatadas ou congeladas; pelas atividades físicas que não pratica; pelas ligações não feitas pra família; pelas palavras não ditas e a falta de remorso; pelos vícios que têm e pelos que ainda terá; por todos os cigarros e cervejas levados até o fim sem culpa. Vai batendo um mal-estar como se uma porrada na boca do estômago. Porque, na verdade, só o que quer é um canto na sala – úmida pela infiltração; só o que quer é um canto no apartamento – sem luz nem gás; ou quem sabe um canto na cidade – perfurada de tiros; ou ainda um canto, remoto, no país – avacalhado pela descrença no outro (e em si mesmo); talvez até sirva um canto qualquer no mundo – devorado pela fome e pelas guerras e mazelas jamais desejáveis ao pior inimigo. Tudo ou nada significando sentidos in-corroboráveis. Pois só o que quer é residir num canto que possa chamar de seu – e, assim, caminhar para dentro do poço sombrio e destrutivo da alma desconhecida que lhe habita.

(Leia o post que originou o conto acima no blog do Heitor Jr. – que é para quem eu dedico esse).
*Publicado originalmente em 24 de abril de 2009.

Piada de dois ou desvendando complicações

(...)

– Mas 'tou com um problema sério.
– Qual?
– Filmes.
– Porque?
– Tenho cada vez mais desgostado de ver adaptações de livros para audiovisuais: estragam minhas histórias pessoais.
– Haã...
– Eu imagino, crio, o personagem magro e colocam um ator gordo na tela. Aí eu me pergunto: o que é que eu faço com aquele excesso todo?
– humm... Lipo?

(trecho de uma conversa minha com Gabri)

polpa, um poema

a Viviane Mosé

o sal que põe em minha boca
tem gosto adocicado,
febrífugo para feridas
em processo de cicatrização.

minhas veias dançam
meu corpo envolve
minhas mãos

arraigadas no solo
que um dia há de acolher
o descanso do que fui.

invento nomes, semeio sonhos,
rugas em processo de gestação
infinitamente amanhecendo

sobre o deserto que me veste
sarei minhas despedidas
ao te receber
sarei o meu abandono

no abraço de um corpo plantado
na pulsação de horas
a conceber vidas e mortes. em ciclos.

dentro do meu peito
flui um rio de águas claras.

Toda questão

A vida só tem sentido do lado avesso.

(mas tem de ter sentido?)
(tem lado inverso?)


(tem verso?)